NARIZ SANGRENTO
Autor: Rafael Passos
O meu olfato já não é tão aguçado. E para falar a verdade nunca foi. É essa falta de um bom faro que me impede de sentir o fedor de muitas coisas. Cheiro de maldade. Aquele cheiro de sangue misturado com terra. O sangue que cai no chão quando acontecem as torturas. Era esse cheiro que deveria eu sentir quando alguém o possuindo se aproximasse. Mas maldito seja meu nariz que sangra toda semana. A bondade tem esse cheiro. Aroma bom de sangue. Sangue fresco, doce, que bate forte em corações que amam. Cheiro de ferrugem que lembra coração puro (como se houvesse realmente um). Grande problema que sinto ao tentar detectar o fedor de pessoas hostis. Só percebo bondade em todos que estão ao meu redor. Falta a terra. Pelo que sei a maldade não tem cheiro de terra molhada (que na verdade lembra serenidade), mas fede como a mesma terra onde ciprestes crescem. Com aquele gás metano da decomposição da carne. E o sangue. E sangue é só o que sinto em minhas narinas. Lamento dois sentimentos tão distintos serem tão fáceis de se confundir por conterem um ingrediente em comum. Não se trata de ingenuidade. É meu olfato deficiente que me deixa louco. Vai ver é sinal que devo começar a procurar usar outro sentido. Visão é uma boa alternativa. Deve ser mais fácil enxergar o que as pessoas pensam observando-lhes os olhares. A maldade pode estar estampada facilmente nas retinas.
Mas para mim nem isso.
Maldita miopia.


Bendita hora em que desenvolvermos nossos sentidos! Bendita hora aquela em que nosso olfato perceba, discirna bem… Enquanto isso, a gente tenta! Adorei! Parabéns!
Ana Paula disse isto em Novembro 28, 2008 às 4:22 pm
A falta às vezes torna-se vantagem, pois há um apuro maior do sujeito em possuir tais sentidos, diferente de quem os possui de maneira aparentemente “completa”, pois que se esquece de ver, de ouvir, de cheirar… Encarei seu texto como uma metáfora para um tipo de cegueira e, no fim, pura ironia. Muito legal seu texto, Rafa.
Flamarion Silva disse isto em Novembro 28, 2008 às 10:01 pm
Ah, Companheiro, quem dera se fôssemos donos de nossas próprias respostas… Nossos sentidos seriam como receptores de uma realidade mais “real”, mas percebo que tudo se perde, torna-se miscelânea emplastificada de desejo, dor, culpa, amor e vazio… Como seu nariz é o meu coração que está perdendo a capacidade de sofrer e sentir-se só.
P. S. Rullor disse isto em Dezembro 1, 2008 às 3:48 pm
Texto perfeito, Rafa. Muito legal, parabéns!
E é, na falta de um sentido, apuramos outros, e você é especial até mesmo por conseguir discorrer tão bem a respeito deles. Sou mais míope que você, e não me refiro de maneira literal (apesar de também o ser, rs).
Beijão!
Tanna Shaknovsk (tassia pellegrini) disse isto em Dezembro 3, 2008 às 2:17 am