DIÁRIO SEMESTRAL DE UM ÚNICO DIA
Autor: Rafael Passos
Como desde pequeno eu me afirmava como amante da leitura e da escrita – passei a minha infância e adolescência lendo – eu, por incrível que pareça, nunca dava tanto valor à matéria de redação na escola. Não que a matéria fosse ruim. Muito pelo contrário. Eu amava de paixão ser o único aluno na sala de aula a conseguir tirar um dez na prova de redação. Mas o problema é a imagem que se leva de uma aula como essa. Professores bons, alunos bagunçados, nenhuma tarefa de sala feita, professores ficando ruins, intolerantes, alunos bagunçando ainda mais, provas e nota baixa. Progresso do caos. A minha vida inteira fiquei um tanto decepcionado de escutar um “vamos matar a aula de redação que não serve pra nada”. Fiquei relembrando tudo isso assim que acabara de acordar, numa bela manhã de sexta-feira, no dia 15 de agosto, e fiquei apreensivo, com medo de sofrer a mesma decepção em meu primeiro dia de oficina de leitura e produção de textos. A turma não tinha tantos alunos, não conhecia quase ninguém, e a professora América, sempre sorridente, começou meu semestre provando que o texto não se resume só ao papel, como aprendemos nas tão matadas aulas de redação do colégio. O texto está na fala, nos recortes, nos grifos, nas colagens, na improvisação. E com muita improvisação e criatividade, os alunos usaram de todos estes meios para se expressarem e exercitarem a capacidade em elaborar um bom texto.
Em uma das primeiras aulas aconteceu então a minha aventura literária. A professora América sugeriu para que a turma fizesse um blog para a publicação de textos, para universalizar através deste meio de comunicação tão viável, as idéias dos alunos para o mundo. Não sou e nem nunca fui uma pessoa ousada. Não sou muito de desafios. Mas foi como uma peça do destino – a professora América chamou, e eu atendi. Ela estava procurando alguém que soubesse mexer em blogs para criar um para a oficina de leitura e produção de texto. Me ofereci a administrar o blog não pelo fato de eu já ter tido experiência com este tipo de interatividade – já que participei de um grupo de escritores antes de entrar na faculdade – mas pelo simples fato de que eu estava sem blog e queria qualquer desculpa para criar um. Eu gosto do que faço.
Estava tudo resolvido. O blog já estava pronto, já tinha o que postar nele, mas havia um pequeno problema: o nome. Um blog sem nome seria algo bastante ruim de lidar. E para escolher este nome foi bastante trabalhoso. Depois de um processo democrático em que todos poderiam dar suas idéias, foi arrematada como boa idéia o nome que o aluno Kleitman sugeriu: Relaxe e Escreva. Houve entusiasmo, alegria, e-mails trocados e, na aula seguinte, uma decepção. Do que adianta o trabalho em escolher um nome como “Relaxe e Escreva” se o responsável pelo blog, o transforma em “Consciente Coletivo”? Era duro de acreditar que eu entrara em desacordo com a turma. Tinha sido muita falta de maturidade da minha parte acreditar que um título como “Relaxe e Escreva” fosse impróprio para um blog criado em um ambiente acadêmico. Com o intuito de que seria até um desafio para o blog ter um nome tão satírico quanto esse, mostra que tudo que aprendemos estava começando a valer. Toda a força de um texto argumentativo e de sua oralidade de por quê, provou que o blog iria ficar de pé. E de fato ficou. É verdade que muitas pessoas não tiveram muito entusiasmo em me mandar textos para postar no blog, e também é verdade que passei o semestre inteiro sem escrever nada de minha autoria por estar sem tempo para isso, mas a cada e-mail com um texto que eu recebia, fui me deliciando por aquela leitura inédita, saindo de mentes tão imprevisíveis quanto a dos meus colegas. Eu tinha em minha caixa de mensagens, prontas para serem lidas, idéias de escritores livres. E com cada um deles há um novo aprendizado.
Kleitman Castro e Flamarion Silva foram os primeiros a me mandarem textos. Durante todo o semestre tive uma admiração pelas idéias destes dois. Flamarion, sempre tão realista e romântico ao mesmo tempo, me ensinou, através de suas crônicas, que a realidade está nua e crua. Escritor do Livro “O Rato do Capitão”, mostrou que bonequinhas podem morrer, que traídos se vingam melhor com o perdão, e que a miséria e a fome “suicida” as pessoas. Com estes textos, me senti comovido, em todos os aspectos. Este escritor nato que se encontra nas aulas de América merece ser lido. E senti mais orgulho ainda quando soube que Flamarion apareceu no Correio da Bahia por conta de sua competência como escritor.
Com Kleitman já pude aprender de maneira bem diferente. Com suas crônicas e poesias, tanto em espanhol quanto em português, concluí que nenhum texto é inocente. Tudo que passa por nós deve ser visto com olhos inocentes e indecentes: desde enterros dominicais e confusões com sonho e realidade, até o dia em que todos nós veremos uma coisa preta. Provoca muita risada e paixão o que Kleitman escreve. E, acima de tudo, provoca.
As meninas também foram um aprendizado para mim. Germana, com seus poemas que nos faz pensar que amores perdidos podem se encontrar e serem encontrados. Faz pensar que o amor vai muito além de sentir amor. Vai junto com a carência. E nesse redemoinho de sentimentos fortes, ela pode um dia comover a mais fria pedra. Diferente de Jancleide, que é felicidade pura, tanto no amor, quanto no circo pegando fogo. E é essa a alegria dela: ver o circo pegar fogo para juntar as cinzas depois.
Ana Paula foi a última que li. Bem que eu gostaria de ter lido textos de todos os alunos da sala. Mas não se pode obrigar ninguém a gostar de escrever, e muito menos a ter vontade. Ana faz poesias lindíssimas onde ela simplesmente prova o que eu já havia imaginado. Que o texto não se trata apenas da parte escrita. Ela usa a voz dela. Ela usa sua subversão pra escrever! E como escreve! Ao término deste semestre e da administração do blog, é necessário que eu afirme que não tive apenas uma professora. Tive vários e vários professores na mesma sala de aula. Porque meus colegas muito me ensinaram, e eu fui lendo e escrevendo e relaxando.

Rafa, este seu ótimo texto traz um ar de adeus. Isto é verdade? Será que nosso melhor convívio acadêmico representa apenas uma etapa, na qual vamos colocar um ponto final? Concordo que este nosso rio de palavras não é muito caudaloso, mas, veja, ouça, ele está começando a fazer ruído… Agora somos mais. É uma questão de tempo.
Só isto. Você escreve bem demais, cara. E emociona.
Obrigado pelas comoventes palavras.
Flamarion Silva disse isto em Novembro 29, 2008 às 1:07 am